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Estabelecida há pouco mais de um século e meio, a máxima evolucionista da seleção contínua dos indivíduos mais adaptados foi claramente revolucionária. Natura non facit saltum é o enunciado resgatado por Charles Darwin dos pensadores gregos: a natureza não dá saltos. Por alguns já foi classificada como reacionária. Liberal, outros disseram. E chegou mesmo a ser rotulada de progressista em algumas ocasiões.

Nem reacionária e tampouco liberal, ela é pragmática e, no estilo de Richard Dawkins, implacável em suas modernas leituras. A tese da macroevolução aplica-se a espécies, empresas, e também a ideias. A cada geração, indivíduos com maiores chances de sobrevivência reproduzem seu DNA e adquirem maior participação na população. O resto do trabalho é puro crescimento exponencial, um modelo matemático que a pandemia da Covid-19 conseguiu demonstrar de maneira didaticamente macabra para as gerações atuais.

Assim tem sido com as edtechs: elas ajudam a selecionar mutações bem-sucedidas nas soluções de problemas ligados ao setor educacional. E o segmento abusa da ideia sebastianista de que uma inovação empreendedora-disruptiva possa, no final da formação do estudante, apagar anos de lições de casa não feitas. Infelizmente esse tipo de ideia encontra ambiente extremamente favorável para se propagar em nossa sociedade de tradição ibérica.

Não temos evidências de que inovações disruptivas em educação foram capazes de produzir impactos em larga escala para melhoria de indicadores como analfabetismo, resultados no PISA, permanência escolar, renda média per capita ou medidas de ganho de produtividade nas populações atingidas.

Ao contrário, são fartas as evidências de que um bom ensino de língua(s), raciocínio lógico e matemático, atividades práticas bem planejadas e conduzidas, compromisso com os fundamentos teóricos dos cursos desde seu início, e ações focadas em engajamento dos estudantes no seu processo de ensino-aprendizagem contribuem inequivocamente para melhores resultados.

Também são abundantes os estudos que relacionam aumento de níveis médios de resultados educacionais associados à posterior elevação nos indicadores de produtividade da economia, e consequente aumento de renda das gerações que foram alvo desse tipo de política.

Em outras palavras, temos referências conhecidas e países que seguiram com sucesso esses caminhos. Saber interpretar os resultados de evidências de programas bem-sucedidos em edtechs, ou em centenas de projetos disponíveis nas redes pública e privada, e identificar os que possam ser escalados para compor soluções, sem dúvida é o grande desafio da gestão da inovação em educação. Será que hoje temos essa “leitura organizada”, para poder evoluir nosso sistema educacional?

Certamente é a evolução de estratégias provadas em educação e sua adaptação ao ambiente e sistemas de ensino existentes, e não a crença em soluções mágicas, isoladas ou pretensamente disruptivas que deve receber nossa atenção. O uso massivo de vídeos (curtos), sala de aula invertida, linguagem youtuber, project based learning e tantas outras pirotecnias que encantaram professores de primeira hora, e principalmente investidores em busca do próximo grande projeto de alto crescimento, não são páreos para uma lição de casa diária, bem planejada e bem-feita.

Em uma visão objetiva baseada em evidências, se as soluções mais eficientes de ensino-aprendizagem e com escala passam necessariamente por tecnologia, então elas também, necessariamente, passam pelo seu bom uso por parte significativa dos professores. Talvez a grande e mais importante disrupção esteja aí: preparar novas gerações de professores para utilizar múltiplas tecnologias (a maioria ainda está por vir!) e para habilitar nossos alunos a trilhar de maneira mais eficiente o percurso de aprendizagem, como vem acontecendo em países como Singapura, Finlândia, Coreia do Sul, Canadá, Estônia entre outros.

“Entre a tecnologia e o bom professor, eu escolho o último” disse Salman Khan fundador e CEO da EdTech Khan Academy em uma entrevista publicada pela Revista Telos 114, em setembro de 2020. Ele resumiu o que há de mais importante no processo de ensino aprendizagem: o Professor.

Nesse sentido, alguns pontos precisam ser levantados para que se possa equacionar e solucionar as questões que têm comprometido negativamente a qualidade da Educação. Quantos de nossos professores atuais conseguem de fato usar recursos de trabalho colaborativo durante uma aula por videoconferência? Quantos professores conseguem executar uma avaliação voltada para aprendizagem? Terão eles condições de formar alunos para atuar em um mercado de trabalho global e altamente competitivo? Quando nossos governantes e em especial o Ministério da Educação, MEC, levarão a bom termo os programas de capacitação dos professores bem como sua valorização e reconhecimento necessários para melhorar os resultados da aprendizagem dos alunos e otimizar sua formação? Será que o investimento no quadro de professores é capaz de gerar taxa de retorno privada, e atrair esforços, ou não seria essa a inovação mais importante que deveríamos estar buscando em educação?

Certamente as respostas a essas questões jogarão um pouco de luz nos pontos críticos que precisam ser revistos para a melhoria do desempenho do sistema de ensino. Professores bem formados aliados ao uso de inteligência de dados e análise de evidências tanto na aprendizagem dos estudantes quanto na gestão acadêmica são fundamentais se quisermos tirar a educação, em todos os níveis, do estado de mediocridade em que está.

Luiz Alvares Rezende de Souza é presidente da Numbers Talk -Business Analytics; Oscar Hipólito Souza é professor titular da USR assessor educacional da Numbers Talk e diretor acadêmico da Cintana Education (Brasil)

Fonte: Folha de S. Paulo

 

 

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