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De olho na procura por trabalhadores capacitados para a indústria, startups despertaram para a importância dos cursos técnicos e passaram a oferecer financiamento estudantil ao segmento. A ideia é apostar em opções livres, com foco em uma formação mais rápida e de menor custo. O esforço pode ajudar a quebrar os preconceitos em torno da modalidade e o seu lento avanço no País em relação ao resto do mundo, sobretudo num momento de maior dificuldade no ensino superior.

“Por muitos anos, o Brasil viu a graduação como único caminho ao sucesso, e isso está mudando. O Brasil está super atrás: apenas 8% da população se forma em ensino técnico, enquanto nos outros países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) esse porcentual é de 40%”, afirma André Dratovsky, fundador e CEO da Elleve, startup especializada em crédito estudantil.

Fundada no ano passado, a empresa financiou cerca de 6 mil alunos, movimentando quase R$ 20 milhões em volume de empréstimos. Segundo Dratovsky, a startup surgiu em um momento de alta demanda do mercado para contratar profissionais com certas especificações, como tecnologia, e a debandada crescente de 3,5 milhões de alunos das universidades privadas no Brasil em 2021.

A taxa de evasão do ensino superior tradicional em 2021 foi de 36,6%, segundo dados levantados pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), que também possui abrangência nacional.

A meta da Elleve é atender 500 mil estudantes nos próximos cinco anos, sendo 60 mil em 2022. Para isso, prevê nova captação de R$ 100 milhões em debêntures já no primeiro semestre deste ano. O perfil socioeconômico geralmente abarca estudantes de renda média mensal de R$ 2.600, sendo 90% vindos das classes C, D e E.

“As pessoas que atendemos não têm tempo para esperar o emprego voltar. Olhando para essa urgência, os cursos de curta duração e de impacto direto são nosso grande foco. De um lado, apoiar as escolas, que são em grande parte pequenas ou médias e não gozam do benefício de buscar um financiamento em um banco, e do outro, para o cara que não tem crédito, estamos viabilizando o curso em um formato acessível de 1%, 1,5%, 2% ao mês”, afirma Dratovsky.

Quem também abriu o olho para esse mercado foi o Pravaler, principal fintech de financiamento estudantil privado do Brasil. A startup sempre focou nos cursos de graduação, mas agora está dando seus primeiros passos em cursos de pós-graduação e ensino técnico.

Para os próximos anos, a empresa espera atender mais de 100 mil alunos e, com isso, a expectativa é alcançar mais de R$ 1 bilhão em financiamentos para os alunos de cursos de curta duração até 2025.

“Isso claramente é uma tendência: esse mercado está crescendo, principalmente na área de tecnologia. Outros segmentos, como saúde, também possuem tíquetes muito altos”, afirma Rafael Martins, diretor comercial do Pravaler. “Fizemos recentemente uma parceria com uma empresa de inteligência artificial com dois grandes blocos: a captação e a evasão, para prever evasão de uma forma antes de dar problema. É uma iniciativa grande para esse ano, que com certeza vai dar ótimos resultados para o mercado.”

Um gigante lento

Apesar do otimismo com o crescimento do ensino técnico, os avanços ainda são lentos. Segundo Marcelo Neri, diretor da FGV Social, apesar da comprovação de que, com um curso técnico, o salário sobe 14% em relação a um trabalhador apenas com ensino médio, a modalidade ainda é vista como uma solução para “empregados”, e não empreendedores ou profissionais autônomos.

Ele cita, por exemplo, o crescimento do número de “nem-nem” (jovens que nem estudam nem trabalham): em 2020, a desocupação na faixa de 15 a 29 anos subiu de 49,37% para 56,34%, segundo levantamento da FGV. Na visão de Neri, a falta da cultura de ensino técnico ajuda a ampliar essa marca

“Os jovens sofreram muito nos últimos anos, perdendo ocupação desde 2013, e vimos aumentar o número de “nem-nem”. A pandemia foi uma mudança a mais nessa direção de precarização, ainda que agora vejamos uma certa recuperação da ocupação para o nível antes da pandemia”, afirma.

Ele caracteriza o ensino técnico como um “gigante que se move lentamente”, que pode começar a dar passos mais largos após a consolidação do novo Ensino Médio, que possibilita de forma mais abrangente a integração com cursos técnicos e especializações dos alunos.

“Há uma mudança na paisagem, que é a reforma do ensino médio, que está começando a ser de fato institucionalizado com as trilhas formativas, com espaço para empreendedorismo, educação financeira e o próprio ensino profissionalizante, que passa a ser uma das possibilidades para o adolescente, o que é uma coisa promissora na base da formação dos jovens”, aponta Neri.

O especialista também aposta no crescimento de cursos ligados a tecnologia e saúde: “Esses setores já se apresentavam como promissores desde antes, e a pandemia acelerou a tendência”.

Fonte: Agência Estado

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