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Para dar sentido ao futuro, não vamos deixar que o presente nos comprometa

Luiz Roberto Liza Curi
Sociólogo, é doutor em economia e conselheiro do Conselho Nacional de Educação

“O Espelho que Foge”, de Giovanni Papini, é um livro que integra a seleção do escritor argentino Jorge Luis Borges em sua “A Biblioteca de Babel”. Nele, o autor estabelece que o futuro, embora irreal, é o tempo mais material da vida. O passado e o presente são expressões ou causas de impacto futuro que, de fato, irão influir na vida humana.

Sem a espera do futuro não haveria sentido possível à vida presente nem utilidade nas experiências passadas. O futuro de vidas ou de sociedades depende, mais do que nunca, de conhecimento e de sua intervenção como bem econômico, social e cultural. Sem o conhecimento não haveria a ciência ou o desenvolvimento tecnológico, não haveria a cultura em continuadas expressões nem o entendimento da necessidade dos direitos individuais e coletivos em sociedades democráticas. Segundo Papini, o espelho foge para proporcionar imagens futuras aos significantes presentes.

A inovação é um significado de múltiplos significantes. Desde o ponto de vista econômico, é articulado com o desenvolvimento da produtividade e do valor dos produtos industriais, seja na desmobilização de custos da produção, seja no valor agregado por tecnologia ao processo produtivo e ao produto. A mobilização em torno da inovação depende de fatores ambientais, essencialmente intricados entre as dimensões empresariais e financeiras, tais como a ciência e a pesquisa, a educação em todos os níveis e as iniciativas tecnológicas.

Por outro lado, um dos grandes desafios da inovação é o processo de formação de recursos humanos aptos aos desafios e requisitos das empresas em inovarem seus processos e produtos. Sem isso não há competitividade econômica possível. Essa associação é cada vez mais relevante na perspectiva de alcançar as competências dos egressos como bem social e econômico transformador.

Cursos de engenharia, por exemplo, geravam, até muito recentemente, uma evasão próxima aos 55% dos matriculados. Em 2018 foram 186.135 matrículas gerais, sendo 36.299 na modalidade a distância. Dos 126.451 egressos, algo como a metade não consegue emprego em áreas correlatas ao curso. Sem contar que, das vagas oferecidas em engenharias em 2018, cerca de 30% foram preenchidas. Culpa de quem? Acho que vale a pena considerar o papel do currículo.

O Conselho Nacional de Educação, em articulação com Ministério da Educação, MEI-CNI (Mobilização Empresarial pela Inovação – Confederação Nacional da Indústria), Abenge (Associação Brasileira de Educação em Engenharia), dezenas de especialistas, docentes, discentes, pesquisadores (a pesquisa na universidade tem que vivenciar a formação) e coordenadores de cursos, reordenou as Diretrizes Curriculares Nacionais de Cursos de Engenharia. Essa ação buscou a expectativa da demanda das empresas e indústrias na perspectiva da modernizaçãxo, inovação e competitividade.

As novas diretrizes curriculares são baseadas em competências, e não em disciplinas. Buscam um processo de aprendizagem diverso e amplo, baseado nas experiências pedagógicas, profissionais e de pesquisa dos docentes, no protagonismo dos discentes e em sua capacidade de produzir conhecimento, com metodologias ativa e práticas reais, integradoras em atividades de pesquisa e extensão na formação, relativizando as salas de aula e os sermões. A partir da relação entre bases, fundamentos, ensaios teóricos e a aproximação aos espaços de trabalho, considerando empresas como ambientes de aprendizagem, os conteúdos passam a ser delineados em competências.

Assim, o curso poderá ser desenvolvido tendo como referência desafios econômicos colocados ao processo produtivo e de serviços, bem como das estratégias empresariais, considerando a inovação como fator dinâmico de competitividade e crescimento econômico.

O fato é que ninguém aprende só ouvindo. Tem que haver leitura, escrita, ampla interação entre discentes, docentes e pesquisadores. Tem que haver letramento digital, mediação de tecnologias de informação e comunicação, laboratórios, estudos de design e vivências práticas ao longo do curso. A organização de um currículo depende da mobilização e das políticas internas das instituições, da sua capacidade de se relacionar e gerar compromissos com a demanda, com os agentes econômicos e sociais que garantam a inclusão dos egressos. Depende de flexibilidade e avaliação que reforce o aprendizado. Depende, sobretudo, da ruptura de práticas conservadoras e estáveis nas instituições e no processo regulatório.

Em tempos de contágio e pandemia é ainda mais necessário buscarmos a continuidade transformadora da educação superior. A expansão do presente reforça a conservação e a paralisia. Estudamos, aprendemos, pesquisamos e inovamos para dar sentido ao futuro. Não vamos deixar que o presente nos comprometa. Se não, seremos capazes de destruir o passado.

Sem educação, o Brasil não inova.

Texto publicado na Folha de São Paulo, em 27.08.20
Link: https://bit.ly/3b3YWoW

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